O mês de novembro está chegando ao fim e com ele a campanha Novembro Azul, mas seria imperdoável se os cuidados com o câncer de próstata fossem diminuídos nos próximos 11 meses. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), este é o segundo tumor maligno mais comum entre os homens, correspondendo, ainda, a 13,5% de todos os cânceres do mundo. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que 66 mil novos casos da doença serão diagnosticados em 2021, número este que vem crescendo continuamente há duas décadas e que deverá assim permanecer no futuro previsível.

O câncer da próstata é bastante seletivo com relação à idade.  Estima-se que 75% dos casos no Brasil atingem a população masculina na terceira idade. O risco da doença começa a aumentar sistematicamente após os 50, e acelera fortemente após os 60. Esse padrão de risco torna este tipo de câncer particularmente preocupante em termos de saúde pública por conta do envelhecimento da população, aspecto que vem transformando, em ritmo inédito na história mundial, o perfil da população brasileira. Alguns números simples podem ajudar a entender o tamanho do problema. Apenas nos últimos 20 anos, de 2000 a 2020, a porcentagem da população brasileira com mais de 60 anos de idade pulou de 7,9% para 13,5%, um crescimento de mais de 76% em termos de pontos percentuais. Pior, até 2050 estima-se que a população nesta faixa etária chegue a quase 30% da população. Ou seja, em 30 anos, seremos um idoso para cada três brasileiros! Não é preciso ser um matemático do INPA para concluir que esta transformação na população, associada ao padrão etário do câncer da próstata, é motivo de sobra para preocupar especialistas e formuladores de políticas públicas de saúde (ou pelo menos deveria ser…).

Previsão precoce e curabilidade

A boa notícia, por assim dizer, é que o câncer da próstata é um dos tipos de câncer com maiores chances de tratamento e cura, desde que diagnosticado precocemente. Por isso, é de extrema importância a visita regular ao urologista a partir dos 45 anos, principalmente para homens com histórico familiar da doença, que apresentem fatores genéticos hereditários, excesso de gordura corporal ou que sejam consumidores de tabaco. Infelizmente, no Brasil e em diversas outras culturas, preconceitos e crenças absolutamente irracionais ainda atrapalham a conscientização da importância de fazer exames diagnósticos periódicos. Não sabemos ao certo quantos homens morrem todos os anos por causa deste tipo de comportamento, mas é razoável assumir que sejam muitos. Há também, é claro, outros problemas estruturais como falta de conhecimento, acesso e meios para realizar o diagnóstico. Por isso, tornar o Novembro Azul em ´ano azul´ é uma necessidade fundamental se quisermos evitar que o envelhecimento de nossa população resulte em uma epidemia de mortes evitáveis nos próximos anos.

Comportamento por região

Novembro Azul GráficosPor todas estas razões – por ser mais frequente entre idosos, e por ser mais precocemente diagnosticado em sociedades mais bem equipadas e preparadas, a incidência do câncer de próstata varia também fortemente regionalmente, e até mesmo, dentro das cidades.

Dados fornecidos pelo INCA mostram que o risco número de casos diagnosticados por 100 mil habitantes varia de 29,39 na Região Norte até 72,3 na Região Nordeste, ficando entre 60 e 70 entre as demais regiões. Há também grandes variações entre estados e cidades. No estado de São Paulo, por exemplo, estima-se que serão diagnosticados em 2021 59 novos casos para cada 100 mil homens, ao passo que no estado do Rio de Janeiro este número chega a 78 por 100 mil homens.

Se estes números variam tão fortemente entre regiões, unidades da federação e capitais, o que dizer dentro das cidades, entre bairros e distritos? Nem mesmo o INCA (ou qualquer outro órgão de estatísticas oficiais) fornece dados neste nível de agregação. Por isso, a Cognatis, empresa de Geomarketing, Analytics e Big Data, desenvolveu um método exclusivo para estimar variações de incidência de câncer, deste e de todos os demais tipos, por áreas intraurbanas. Tendo como base as três maiores cidades do país, verificou-se uma incidência de maiores casos de câncer de próstata na cidade de Belo Horizonte com 106 casos por 100 mil homens, número que no Rio de Janeiro não chegará a 90. Embora São Paulo seja reconhecidamente uma cidade onde há uma maior concentração de idosos, os números são bem mais baixos em comparação com as outras duas cidades, com 53,3 casos por 100 mil homens esperados em 2020. Olhando para dentro das cidades, o mapa do câncer de próstata parece bastante com o mapa de renda das cidades. Segundo estimativa da Cognatis, em São Paulo, bairros como Jardim Luzitânia, Jardim Europa e Higienópolis, onde a renda média familiar está acima de 20 mil reais por mês, apresentam os maiores riscos de novos casos de câncer da próstata (mais de 110 casos por 100 mil homens), ao passo que bairros como Jardim Pedra Branca ou Jardim Humaitá, onde a renda média familiar fica abaixo dos cinco mil reais por mês, apresentam as menores taxas com menos de 40 casos por 100 mil homens. Este padrão de distribuição espacial e socioeconômica do risco desta doença também se repete no Rio de Janeiro e Belo Horizonte, conforme pode ser conferido nas tabelas e gráficos abaixo.

População brasileira e idosa (60 +) projeção

Ano População Pop 60 + %
2000 174.790 13.874 7.9%
2020 212.559 29.857 14.0%
2050 228.980 67.361 29.4%

Fonte: World Population Prospects https://population.un.org/wpp2019/ acessado em 29/11/2020

Fonte: Cognatis com base no Geopop® Saúde

Considerações

É possível que dados sejam, como está na moda se dizer, o novo petróleo. A análise rigorosa e responsável de dados possibilita, sem dúvida, iluminar questões importantes que, na ausência destes, continuariam contaminadas pelo obscurantismo e subjetivismo. Mas quem pensa que análise de dados é apenas ciência, e não arte, engana-se. Dados podem ser traiçoeiros e saber lê-los nas entrelinhas é às vezes fundamental para evitar conclusões desastrosas. As estatísticas apresentadas acima exemplificam bem este ponto.  As fortes variações nas taxas de incidência do câncer na próstata entre regiões, estados e cidades podem ser explicadas por um conjunto de fatores complexos resultantes de como estes dados são coletados e calculados. Primeiramente, é necessário considerar as diferenças na qualidade e universalidade dos registros de diagnósticos entre regiões. Cidades onde há melhor infraestrutura de saúde e institucional tendem a ter mais diagnósticos e mais chances destes diagnósticos serem registrados. Isso pode explicar, em grande parte, o fato de a região Norte apresentar uma incidência bruta da doença tão mais baixa que outras regiões. Há também outras questões relacionadas a como os dados são registrados que precisam ser consideradas. Belo Horizonte apresenta uma taxa muito mais alta que São Paulo e Rio de Janeiro, uma diferença que dificilmente poderia ser explicada por questões ligadas à infraestrutura de saúde destas cidades. É possível, porém, que muitos dos casos registrados em BH se refiram a populações que vivem em outras cidades, mas que se trataram ou foram diagnosticadas na capital mineira. Este tipo de “migração” de registros de endereços é mais um dos muitos problemas conhecidos em dados desta natureza. Apesar de não conclusivo, o fato de que a incidência em Minas Gerais (estado) não seja muito diferente da do estado de São Paulo (63 contra 59 casos por mil homens, respectivamente) corrobora com a hipótese de que Belo Horizonte não seja, isoladamente, um ponto fora da curva.

A comparação dos bairros dentro de uma mesma cidade não são, por construção, afetadas por problemas de qualidade de registros, uma vez que são interpoladas a partir da contagem oficial da cidade. Este padrão, digamos assim, aparentemente socialmente “justo”, em que bairros mais ricos tendem a apresentar maiores taxas, esconde, no entanto, ainda outra sutileza destes dados, pois é na verdade apenas um resultado das variações etárias destas populações. Ocorre que quando comparamos bairros de uma mesma cidade, é normal observar uma forte correlação entre riqueza e envelhecimento populacional. Em geral, bairros com populações mais ricas também apresentam maiores proporções de idosos ou populações mais maduras. Há muitas razões para que isso aconteça que fogem ao escopo da nossa conversa aqui, como o fato de populações mais ricas terem menos filhos, viverem mais e porque a renda tende a aumentar com a idade. Mais importante a se observar, no entanto, é que estas regiões com maior poder aquisitivo, e maior incidência deste câncer, são também as regiões com maior proporção de pessoas com acesso à tratamento e diagnóstico. Para se ter uma ideia, outro dado exclusivo da Cognatis mostra que em Jardim Luzitânia a proporção da população com seguro de saúde particular está acima de 85%, ao passo que no Jardim Pedra Branca esse percentual não chega a 45%.  Isso significa que, pelo menos no caso deste câncer, e por enquanto, o problema está mais concentrado onde há maiores recursos para lidar com ele. Nada a comemorar, é claro, mas um pequeno alento.  Melhor ainda, dados como estes podem ajudar a empresas do setor de saúde, tanto na área diagnóstica como terapêutica, a planejar melhor a localização e comunicação de seus recursos a fim de impactar mais eficientemente estas populações. Dados do GEOpop® Saúde da Cognatis, ferramenta utilizada neste estudo, incluem, além da incidência de todos os tipos de câncer, estimativas de risco de outras doenças por bairro ou até setor censitário.

O que é…

O câncer de próstata é um tumor maligno que afeta a glândula do sistema reprodutor masculino (próstata) que envolve a uretra (canal que liga a bexiga ao orifício externo do pênis), que por sua vez está localizada logo abaixo da bexiga e à frente do reto. Segundo o Instituto Oncoguia, ele pode apresentar uma fase inicial silenciosa, ou seja, geralmente não provoca sintomas, que são comumente vistos nas fases tardias, como:

  • Dificuldade para urinar
  • Fluxo urinário fraco ou interrompido
  • Sensação de não esvaziamento da bexiga
  • Vontade de urinar no meio da noite (Nictúria)

Em fases mais avançadas, pode-se, ainda, perceber:

  • Sangue na urina ou no sêmen
  • Disfunção erétil
  • Dor no quadril, costas, coxas, ombros ou outros ossos (se a doença se disseminou)
  • Fraqueza ou dormência nas pernas ou pés

Vale ressaltar aqui que alguns desses sintomas também são comuns a outras condições clínicas, como o aumento da frequência urinária, que pode ser causado por hiperplasia prostática benigna (crescimento benigno da próstata). Então, consultar o médico e fazer os exames necessários para um tratamento adequado é a melhor forma de lidar com o assunto.

Curiosidade

O movimento Novembro Azul teve origem em 2003, na Austrália, com o nome de “Movember“ quando dois amigos, Travis Garone e Luke Slattery, tomavam uma cerveja em um bar de Melbourne e tiveram a ideia de trazer de volta à moda o uso do bigode. De todos os amigos e conhecidos que resolveram fazer parte da onda eram cobrados 10 dólares, que seriam, então, revertidos a uma causa maior: ao combate do câncer de próstata. A escolha do mês de novembro para realização do movimento foi em virtude de no dia 17 desse mês comemorar-se o Dia Mundial do Combate ao Câncer de Próstata. Coincidentemente (ou justamente por este motivo), as maiores taxas de incidência de câncer de próstata no mundo encontram-se na Austrália e Nova Zelândia, seguidos pelos países europeus e Estados Unidos.

Incidência de câncer de próstata por bairro em Belo Horizonte

Bairros Novos casos (por 100,000 homens) por ano Percentual população com convênio privado de saúde Renda Média Familiar
Bairros com maior incidência
Mangabeiras 216.99 74.01% R$ 32,158.43
Boa Viagem 180.88 70.26% R$ 12,237.28
Savassi 180.20 73.87% R$ 16,773.62
Barroca 177.37 63.87% R$ 10,131.02
Serra 177.06 70.34% R$ 14,559.77
Funcionários 175.48 73.10% R$ 17,259.06
Bairros com menor incidência
Ouro Minas 54.75 42.87% R$ 2,969.36
Novo Aarão Reis 54.33 36.87% R$ 1,820.70
Manacás 51.98 48.10% R$ 4,559.45
Esperança 51.82 41.29% R$ 1,659.25
Solar do Barreiro 49.69 40.68% R$ 2,457.85
Zilah Sposito 40.96 42.85% R$ 1,817.92

Fonte: Cognatis com base no Geopop® Saúde

Incidência de câncer de próstata por bairro no Rio de Janeiro

Bairros Novos casos (por 100,000 homens) por ano Percentual população com convênio privado de saúde Renda Média Familiar
Bairros com maior incidência
Flamengo 154.90 78.20% R$ 14,734.39
Copacabana 153.65 71.87% R$ 12,948.75
Leblon 150.60 83.02% R$ 21,230.72
Ipanema 149.57 81.77% R$ 20,222.13
Méier 139.99 67.17% R$ 9,397.41
Glória 134.61 65.44% R$ 9,080.07
Bairros com menor incidência
Acari 46.68 35.23% R$ 2,069.29
Jacarepaguá 45.60 45.60% R$ 4,467.06
Itanhangá 42.06 50.93% R$ 5,836.53
Manguinhos 42.03 35.48% R$ 2,278.34
Rocinha 39.80 38.04% R$ 2,330.62
Gericinó 13.95 2.95% R$ 3,058.82

Fonte: Cognatis com base no Geopop® Saúde

Incidência de câncer de próstata por bairro em São Paulo

Bairros Novos casos (por 100,000 homens) por ano Percentual população com convênio privado de saúde Renda Média Familiar
Bairros com maior incidência
Granja Julieta 106.54 78.72% R$ 32,158.43
Jardim Luzitânia 105.97 85.40% R$ 12,237.28
Higienópolis 104.90 77.37% R$ 16,773.62
Jardim Europa 104.79 79.44% R$ 10,131.02
Lapa 101.70 68.19% R$ 11,413.75
Alto de Pinheiros 97.92 77.97% R$ 22,840.00
Bairros com menor incidência
Chácara Jaraguá 43.98 67.27% R$ 8,006.46
Sítio Vale Verde 43.58 45.08% R$ 3,418.75
Parque do Terceiro Lago 43.56 54.03% R$ 5,761.21
Vila Socorro 46.04 57.78% R$ 15,255.24
Jardim Pedra Branca 20.26 45.22% R$ 4,602.74
Jardim Humaitá 8.65 69.34% R$ 1,986.73

Fonte: Cognatis com base no Geopop® Saúde

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